Texto sobre Abismo – Moacy Cirne

2011

 

Moacy Cirne

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Sábado, Dezembro 03, 2005

 

BALAIO INCOMUN 1629

Uma folha porreta desde 1986

Rio, 3 de dezembro de 2005

 

 

TRÊS VÍDEOS, TRÊS MOMENTOS

 

Ontem, no Ateliê da Imagem (Av. Pasteur, Urca, Rio), espaço que tem, uma vez por mês, privilegiado a apresentação de curtas alternativos, os três últimos vídeos exibidos, mesmo levando em conta suas propostas formais e temáticas radicalmente diferentes, por vias atravessadas, se completaram em nosso imaginário de espectador. E o que poderia ser estranho, pelo menos para algumas pessoas, talvez seja apenas um exercício de especulação intelectual.

 

(…)

 

No segundo deles, Abismo, de Marcelo Ikeda, a proposta da radicalidade aponta para outro tipo de narrativa, contrapondo-se à obra anterior com alta voltagem reflexiva: isto não é um filme tradicional. Em seus 21 minutos, aparentemente nada acontece: nenhum corte, nenhum movimento de câmera, nenhuma ousadia formal, nenhuma ação dramática mais intensa, a não ser a cristalização significante da própria interioridade ontológica do autor-ator-personagem, que, no banheiro de sua casa, ao sair do chuveiro, diante de um espelho, tem reações que vão da alegria ao choro, da indiferença à náusea. Como disse Ikeda, em nota distribuída, “ABISMO procura se inspirar livremente nos ideais de Jerzy Grotowski, traduzindo-as para o vídeo, acreditando que o curta-metragem seja o formato ideal para a experimentação, como um contraponto às fórmulas da banalização promovidas pela publicidade, pelo cinema hollywoodiano e pela televisão”. Sem dúvida, se Grotowski propunha um teatro pobre, Ikeda propõe um cinevídeo pobre, correndo todos os riscos da não-compreensão por parte do público e da crítica. Não é fácil gostar de suas realizações que primam pela anticinemacidade. Mas exatamente aqui, nesta desesperada anticinemacidade, reside a sua principal qualidade: é possível pensar a imagem audiovisual fora dos padrões estético-ideológicos manipulados pela publicidade, por Hollywood, pela televisão.

 

Uma resposta para “Texto sobre Abismo – Moacy Cirne”

  1. […] “Três vídeos, três momentos – Moacy Cirne […]

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