EM CASA
r. cavalo
http://www.cinemainvencao.blogspot.com
(blog desativado – publicado em 12/09/2005)

Sobre EM CASA:

O filme começa, primeiros planos com movimento, a cidade ficando para trás (anunciando aquele tema do tempo, da passagem do tempo e da efemeridade), um túnel (simbolizando uma passagem, no caso um retorno: para o passado, em última instância, inconscientemente para o útero materno – já que o próprio túnel caracteriza também isso, e “deságua” em luz – o desejo de retornar).

DA LAPIDAÇÃO DO VAZIO

Os planos então, são sempre fixos, explorando a casa vazia, mais ainda, os espaços vazios, o vazio entre os espaços vazios, dentro da casa vazia. Vê-se jornais num quarto, o que representa a loucura do tempo incessante, o passado imediato, o dia-pós-dia, o cotidiano e tudo ficando para trás. A cortina balançando e o papel do vento no filme, que vou falar depois.

Predominância de imagens de vãos, espaços preenchidos mas sempre com o vão visível.

As ruas vazias – o que sobra do homem é o que ele construiu. O resto é efêmero. Ele, o homem, é tão efêmero. Vemos as casas, produtos, roupas, etc, tudo o que o homem construiu para sobreviver a ele, para ficar, para durar. A gaiola vazia, as latas de tintas vazias.

Na lapidação do vazio, o filme tenta buscar algum sentido, ou talvez apenas constate que não há nenhum.

DA CONSTRUÇÃO DE PLANOS

O longa aqui não é de cinema-entretenimento e muito se distancia do cinema narrativo. É um vídeo de propostas sérias e artísticas, que mais se aproxima às artes da pintura e da fotografia – e também da filosofia – do que da literatura e teatro. Aliás, arriscaria dizer que também se aproxima da arquitetura. Os planos brincam com as formas das coisas, com a perspectiva, com o espaço, com os objetos. É um filme que denuncia o estado das coisas, a inércia. Vê-se retratos, fotografias do passado, os próprios planos sempre fixos lembram a fotografia, mas explicitam a passagem do tempo sutilmente, diferentemente da fotografia que congela o determinado instante. Flores artificiais (que não degredam, não morrem, permanecem vivas, vencem o tempo), planos de pedras (que sofrem a presença do tempo através da erosão, que vêm dos primórdias, revelam o passado em si mesmas e são seres inanimados, sobrevivem ao tempo).

Fica claro que o filme questiona o mundo/vida/existência, através das imagens (é através delas, principalmente, que o homem vive).

Um quadro “egípcio” preenchendo todo o plano. A documentação do tempo, do passado.

Na casa livros, discos, fitas, a cultura oriental e a ocidental (wenders e ozu, que são revelados nos agradecimentos), enfim, um pouco de resposta à questão: “quanto da casa há em mim” e “quanto de mim há na casa”.

O filme vai trabalhando no nosso pensamento, começa a nos torturar com a realidade que nos mostra. Passo a questionar a presença do homem, junto com o filme. Em um plano revela-se timidamente a presença da religiosidade, trazendo junto as questões da moral da humanidade, da culpa, pecado, repressão, busca por redenção.

Temos planos com imagens de organização (na sala por exemplo, um ambiente idealizado, belo, arrumado) e imagens de caos (no corredor, por exemplo, instrumentos misturados, fios emaranhados, etc). Os ralos, o esgoto que há por baixo, a degeneração. O tempo nos guia ao caos, enquanto o homem busca a idealização (que esconde por trás a decadência).

A construção humana em contraponto com a natureza (ao fundo, mas opressora, ocupando em alguns planos mais da metade do plano, deixando os telhados esmagados na parte inferior). A pequenez do homem (“meu deus, por que sou tão pequeno?”). A vida cotidiana esmagada (pelo tempo?). Os dois se esmagando explicitamente nos planos (NAS TELHAS), o homem lutando com a natureza, querendo se impor, tudo isso em planos fixos!

O tempo segue, a noite vem, o mundo gira.

Depósito de passado no andar de cima.

“O QUE HÁ DE MIM NA CASA?”

Resposta: Fantasmas de um passado.
Homens trabalhando, no que seria a reforma de uma casa (reconstrução, recomeço, ciclo).

COMPONDO O SILÊNCIO

O filme trabalha todo o silêncio (desesperador). Através de ruídos como latidos de cachorro por exemplo, compõe se o silêncio no vídeo. Em certo momento, em planos externos, o som de crianças brincando (um retorno à infância?). Nas imagens, vazio.

Batidas incessantes de homens trabalhando (construindo, o homem sempre construindo).

O mundo é o vazio, o silêncio e a natureza. A presença do homem é intrusa, e portanto efêmera com a passagem do tempo. Pequena em relação à natureza. E o homem não se conforma com isso. Luta contra. O oriental já mais amadurecido desse conflito, aceita a efemeridade com tranquilidade e paz, tira a experiência da vida como sabedoria colhida através do cotidiano. O ciclo e a repetição aperfeiçoam. Busca-se uma possível transcendência? O ocidental não se conforma, quer se impor a todo custo, quer ser o dono do mundo, vencer o tempo, a natureza. Ele não vence o silêncio (sempre que o barulho acaba o silêncio permanece, o silêncio nunca acaba, o barulho sim), não vence o vazio (preenche-se espaços, mas os vãos entre os espaços preenchidos predominam).

EM CASA

Um filme sobre o estado das coisas.

Volta para o começo. Planos da entrada da casa. Fecha-se em círculo (simbolizando o tempo em si).

A poesia maravilhosa da cortina balançando. O que restou da vida naquela casa, o sopro do vento dá o único movimento na casa. O sopro do vento que também balança as flores de uma planta. A gota d’água pingando (o tempo, a marcação do tempo, sua passagem).

A fotografia do artista quando criança, o instante captado. O plano da casa inteira, esta que no final toma um vulto, assume-se como persona, tem vida própria, é assustadora, fantasmagórica.

A volta para casa, o passado ficando para trás.

HOJE: “O QUANTO DA CASA HÁ NELE”.

No que parece ser um plano fixo (o último então do filme), vemos a edição do próprio filme (editando o passado: o motivo do seu cinema) – metalinguagem que nos mostra o questionamento da própria arte – e dá-se início a uma panorâmica que termina numa moldura no centro do plano. A moldura é um quadro, uma tela, enquadra, é o cinema. Ainda mais, a moldura é de um espelho. No espelho reflete-se o artista com sua câmera. E basta, não é preciso falar mais nada.

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Moacy Cirne

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Sábado, Dezembro 03, 2005

 

BALAIO INCOMUN 1629

Uma folha porreta desde 1986

Rio, 3 de dezembro de 2005

 

 

TRÊS VÍDEOS, TRÊS MOMENTOS

 

Ontem, no Ateliê da Imagem (Av. Pasteur, Urca, Rio), espaço que tem, uma vez por mês, privilegiado a apresentação de curtas alternativos, os três últimos vídeos exibidos, mesmo levando em conta suas propostas formais e temáticas radicalmente diferentes, por vias atravessadas, se completaram em nosso imaginário de espectador. E o que poderia ser estranho, pelo menos para algumas pessoas, talvez seja apenas um exercício de especulação intelectual.

 

(…)

 

No segundo deles, Abismo, de Marcelo Ikeda, a proposta da radicalidade aponta para outro tipo de narrativa, contrapondo-se à obra anterior com alta voltagem reflexiva: isto não é um filme tradicional. Em seus 21 minutos, aparentemente nada acontece: nenhum corte, nenhum movimento de câmera, nenhuma ousadia formal, nenhuma ação dramática mais intensa, a não ser a cristalização significante da própria interioridade ontológica do autor-ator-personagem, que, no banheiro de sua casa, ao sair do chuveiro, diante de um espelho, tem reações que vão da alegria ao choro, da indiferença à náusea. Como disse Ikeda, em nota distribuída, “ABISMO procura se inspirar livremente nos ideais de Jerzy Grotowski, traduzindo-as para o vídeo, acreditando que o curta-metragem seja o formato ideal para a experimentação, como um contraponto às fórmulas da banalização promovidas pela publicidade, pelo cinema hollywoodiano e pela televisão”. Sem dúvida, se Grotowski propunha um teatro pobre, Ikeda propõe um cinevídeo pobre, correndo todos os riscos da não-compreensão por parte do público e da crítica. Não é fácil gostar de suas realizações que primam pela anticinemacidade. Mas exatamente aqui, nesta desesperada anticinemacidade, reside a sua principal qualidade: é possível pensar a imagem audiovisual fora dos padrões estético-ideológicos manipulados pela publicidade, por Hollywood, pela televisão.

 

 

Marcelo Ikeda

 

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