CARTAS AO CEARÁ

 


 

 

 
 

CARTAS AO CEARÁ #02
12min, DVD
Naquela fria noite em minha casa, me lembrei de alguns de vocês. Estava só e me aqueci com uma canção, enquanto dormia.

 

CARTAS AO CEARÁ #03
10min, DVD
Quando estive em Muniz Freire, me lembrei de alguns de vocês. Dois caminhos. Entre o campo e a cidade. Entre os passos e as roldanas.

 

CARTAS AO CEARÁ #04
3min, DVD
Quando estive em Parati, me lembrei de alguns de vocês. Entre os cachorros e os pombos, um olhar. Filmar é escolher. Deixar de fora. Como a vida.

 

CARTAS AO CEARÁ #05
2min, DVD
Quando estive em Parati, me lembrei de alguns de vocês. E do Five do Kiarostami.

 

CARTAS AO CEARÁ #06
9min, DVD
Na Taíba, me lembrei de vocês. Somos pequenos diante do mundo, mas somos. Vivemos nas bordas do quadro.

 
 

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CARTAS AO CEARÁ

 


 

 

Num momento em que Tropa de Elite 2 bate todos os recordes de público do cinema brasileiro, e num momento em que os festivais no Brasil florescem e dão suporte ao surgimento dessa bela nova cena de um cinema brasileiro contemporâneo, tenho a necessidade de fazer filmes para poucos, que circulem pouco, o menos possível. Diminuir o número de pessoas a quem se destinam os filmes e restringir seu circuito de circulação. Com uma pequena câmera e uma pequena ilha de edição, posso fazer pequenas obras audiovisuais que não sejam um produto, uma mercadoria, que circula num mercado, em busca de uma formação de preço, em busca de uma vitrine que irá legitimar sua produção, encontrar o “seu valor”. Essas obras audiovisuais podem ser, ao contrário, singelos sinais de amizade, simples gestos de amor, breves mensagens colocadas dentro de garrafas e jogadas ao mar.

Por isso, fiquei com vontade de fazer diversas cartas audiovisuais e mandar para os meus amigos. O “circuito de difusão” da obra seria esse: mandar pelo correio o DVD com o filme para três ou quatro pessoas. Encontrei o formato da carta como um formato que me oferecia muitas possibilidades, pois uma carta é sempre um face-a-face: quem escreve uma carta, fala para o destinatário, mas acaba inevitavelmente falando também para si mesmo. Uma carta é sempre uma tentativa de comunicação, uma abertura para o mundo, uma abertura de si para o outro. Ao mesmo tempo, toda carta traz consigo uma inevitável ideia de saudade e distância. Escrevemos uma carta porque, por um motivo ou outro, não podemos estar junto, não podemos estar perto do outro.

Essas cartas no entanto não seriam meramente confessionais ou meramente descritivas de uma rotina. Com isso, quero dizer que procurei nessas cartas travar um diálogo sutil que pudesse mostrar a mim mesmo e a minha rotina não como mera descrição (uma narração em voz-over que ilustrasse imagens, como se fosse uma carta escrita), mas sim através de uma escrita não literária mas cinematográfica, a partir de uma articulação entre imagens e sons. Ou seja, o desafio é transformar esse pensamento mesmo não com palavras (literatura) mas por meio do cinema. Sem querer explicar, mas apenas dividir, compartilhar. Ou seja, as cartas nascem de uma necessidade não de descrever ou de explicar os meus dias, mas de compartilhar algumas reflexões que nascem dessa distância, e a partir dessas imagens (e desses sons) promover uma tentativa de reaproximação, como se o cinema pudesse talvez reduzir a distância e a saudade por meio de uma abertura para o mundo e para o outro.

Por isso, para mim é muito significativa a escolha de serem todas cartas “para o Ceará”. Um lugar distante de mim (culturalmente, geograficamente) mas ao mesmo tempo muito próximo, muito íntimo, porque lá tenho amigos e porque lá desabrocha um sentimento para a vida e para a criação que muito me interessam. Mas estou do “lado de cá”, no Rio, observando isso à distância, com saudade das conversas e dos dias que estive lá. Desse modo, essas Cartas ao Ceará mostram, acima de tudo, através de sua atitude libertária no ato de filmar, montar e enviar essas obras finalizadas, um desejo de estar próximo, um desejo de cruzar essa fronteira “do lado de cá” para o “lado de lá”.

Por isso, acho muito bonito o fato de essa série ter terminado simplesmente porque consegui atravessar essa fronteira, indo morar no Ceará. Hoje não preciso mais mandar cartas; eu encontro com as pessoas. Assim, uma coisa que muito me emociona é a possibilidade de transformar essa série de “cartas AO Ceará” em “cartas DO Ceará”. A própria possibilidade de fazê-lo mais do que justifica toda a minha energia envolvida nelas. Percebam que não são “cartas ao Rio”, mas sim “cartas do Ceará”.

Sim, mas isso não responde ao essencial: por que mostrar essas cartas para outras pessoas, além daquelas a quem as cartas a princípio se destinam? Na verdade, não sei bem responder a essa pergunta. Acho que no fundo é esse desejo que nos move como criadores: é a diferença da carta para a literatura, ou porque resolvemos tirar os nossos escritos da gaveta e publicá-los em algum lugar outro, ou mesmo mostrar para alguém. Queremos mostrar talvez para sermos compreendidos, ou simplesmente para nos sentirmos menos sós. Depois de um primeiro ciclo, mandando as cartas para os respectivos destinatários, me sinto pronto para que, agora, algum tempo depois, eu possa dividi-las com um outro pequeno conjunto de pessoas que por ventura se interessem no que elas têm a dizer.

Carta ao Ceará #02

Carta ao Ceará #03

Carta ao Ceará #04

Carta ao Ceará #05

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carta ao Ceará #06

 
 

ENTRE MIM E ELES

(CE, 2013, cor/p&b, 80′)


ENTRE MIM E ELES - barquinho

 
 

SINOPSE: Quatro amigos se reúnem para fazer um filme. E eu os observo. Um filme-ensaio sobre o processo de filmagem de OS MONSTROS, de Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes (Alumbramento Filmes). Um filme-carta, um filme-diário, um filme-ensaio, um filme-de-arquivo, um filme-de-garagem.

FICHA TÉCNICA: Um filme-processo de Marcelo Ikeda. Câmera (Prólogo/Epílogo): Victor Furtado. Edição (Prólogo/Epílogo) e Finalização: Hugo Pierot.

 

CARTA DE INTENÇÕES:

Amigos,
Acabo de finalizar mais um filme caseiro, chamado ENTRE MIM E ELES.

Pouco tempo depois de começar a morar em Fortaleza, recebi o convite para fazer o making-of de “Os monstros”, o novo filme do Alumbramento, realizado por Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, filmado logo depois de Estrada Para Ythaca. Achei interessante fazê-lo de forma que não fosse formatado como um making-of tradicional mas que tivesse uma autonomia, como se fosse um típico trabalho meu. Assim, ENTRE MIM E ELES é na verdade um ensaio sobre o processo de filmagem de OS MONSTROS, ou seja, um filme sobre um filme sendo feito, ou ainda, como eu o apresento, um “filme-processo”.

Como se fala muito sobre essa cena com base no processo, na coletividade e nas relações de afetividade entre os membros da equipe, ENTRE MIM E ELES me pareceu um prosseguimento das questões que venho colocando nos meus textos e nas minhas palestras, como essas questões se dão a ver no próprio set de filmagem. É possível, portanto, ver no set como a equipe trabalha com quatro diretores sem relação de hierarquia, e como a afetividade e a amizade se infiltram no próprio processo de realização da obra. Essa tênue relação entre criação e vida, de modo que se faz cinema e se vive ao mesmo tempo. O exemplo típico é a sequência na praia, quando nos intervalos da filmagem todos vão tomar banho de mar! É ainda possível ver como se filma com tão pouco: a primeira sequência mostra como há apenas um refletor para iluminar todo o set, e o resto vai se fazendo como é possível. ENTRE MIM E ELES, portanto, é uma espécie de filme-ensaio, um documento crítico que fornece mais elementos para se compreender o cinema-de-garagem brasileiro.

Ao mesmo tempo, acredito que esse seja um filme que possa ser visto para além do mero registro, mas como uma obra independente, visto que prossegue com o meu próprio cinema: ou seja, é um filme-diário, um filme-carta, um filme-ensaio, um filme-de-arquivo, um filme-de-garagem. De um lado, esse filme vem dialogando com os videos que venho fazendo precariamente ao longo da última década, perceptível através dos enquadramentos, das opções por um tempo mais alongado, pelo silêncio e pela sugestão. Pelos vazios e pelas penumbras. Ou seja, por suas opções econômicas, éticas, estéticas e políticas. É assim que acredito que ENTRE MIM E ELES não é simplesmente “um institucional do novíssimo cinema brasileiro” mas oferece outras camadas de interpretação.

O próprio título oferece uma dessas camadas. De fato, não é só um cineasta que filma outros cineastas mas é justamente um amigo que filma outros amigos. A minha relação de intimidade com tudo o que se apresenta ali é muito clara, e toda a equipe me acolheu de braços abertos para que eu pudesse testemunhar (conviver) esse processo muito íntimo, costurado artesanalmente por poucas pessoas. Ao mesmo tempo, não faço parte da equipe. Filmo tudo com uma certa distância, com uma certa solidão. Há algo ali entre mim e eles. Faço um filme solitário sobre um filme coletivo.

Por isso, acredito que o “prólogo” e o “epílogo” possam oferecer mais camadas, para contribuir para uma certa distância crítica em relação ao que se constroi ao longo do filme. Essa estrutura em três partes – que dialoga com outros de meus filmes, como o EM CASA, DESERTUM e ÊXODO – retoma o meu próprio trabalho com a casa e a autorrepresentação, transformando assim ENTRE MIM E ELES numa espécie de video-carta, um tanto parecida, a meu ver, com as intenções da minha CARTA DO CEARÁ. Se de um lado esse filme é um ensaio crítico sobre o cinema-de-garagem brasileiro, ele é ao mesmo tempo imensamente pessoal, como as críticas que costumo publicar no meu blog. Ou seja, busquei fazer de ENTRE MIM E ELES uma tradução para a linguagem audiovisual (um filme) dos textos críticos que escrevo em meu blog: rigor combinado com intimidade. Se eu puder ser direto, diria que esse filme é um cântico de esperança e uma ladainha de lamento: esse filme não é propriamente sobre o fim mas sobre o fim da minha própria possibilidade de compartilhar um sentimento sobre um certo contexto. Ou ainda, é sobretudo um ato confessional do meu próprio fracasso. Ao mesmo tempo, ainda há mais caminhos a serem percorridos. Permaneço acreditando muito na possibilidade da resistência. É preciso persistir. Esse filme é uma garrafa lançada ao mar.

Marcelo Ikeda
Fortaleza/Rio de Janeiro, março de 2013.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Carta para a comunidade makingoff.org – Marcelo Ikeda (sobre a disponibilização do filme no site para download)

Esses pequenos passos silenciosos – Marcelo Ikeda (sobre a primeira exibição do filme, no CCBB/RJ – MFL em 16/03/2013

Carta de Dércio Barros

Crítica de Fernando Mendonça – Filmologia

Crítica de Pedro Tavares – Cinemaorama

 
 



 
 

DESERTUM

2011

 
 

DESERTUM

(RJ, 2006, cor, MiniDV, 80′)


 
 

SINOPSE: Estar lá é não estar aqui, é não estar em lugar algum. O tempo, os locais físicos e a distância. O estrangeiro é um ausente de si mesmo. O autor é o estrangeiro dos estrangeiros. “Estou à procura de um homem que não conheço, que nunca foi tão eu mesmo quanto desde que comecei a procurá-lo.” Edmond Jabès

FICHA TÉCNICA: Realização: Marcelo Ikeda. Câmera Adicional: Mariana Coli. Trilha Sonora: Ricardo Pretti.

 

DECLARAÇÃO DO DIRETOR: DESERTUM compõe uma trilogia de diários de viagem em longa duração, precedido por Em Casa e sucedido por Êxodo. Numa viagem a Buenos Aires, a câmera apresenta apenas o ponto de vista do autor: um olhar estrangeiro numa terra estrangeira. Dessa forma, torna-se quase um antidiário-de-viagem, afastando-se do deslumbramento do turista, para fazer imergir o espectador numa experiência outra de espaço-tempo. O misterioso final aponta para qual o sentido dessa viagem, e questiona a transformação do estrangeiro depois desse processo.

 

CARTA DE INTENÇÕES (escrita em 2006): Desertum é um longa-metragem que dialoga com o documentário para compor um trabalho de linguagem de base experimental. Realizado de forma independente, sem leis de incentivo ou apoio governamental, comprova a viabilidade das novas tecnologias digitais na realização de trabalhos que buscam uma linguagem mais livre das convenções narrativas da televisão, do cinema holywoodiano ou da publicidade.

Quase todo filmado na Argentina, com uma portátil câmera MiniDV, Desertum acompanha o olhar de um viajante, saindo de sua casa no Brasil e embarcando em viagem para a Argentina até a volta para sua cidade-natal. Filmado em uma câmera subjetiva, quase como um diário de filmagem, inspirado, por um lado, nos filmes supeoitistas de vanguarda novaiorquina dos anos setenta, especialmente os de Jonas Mekas, e, por outro, no distanciamento rigoroso de alguns documentários de Chantal Akerman, só é possível ao espectador acompanhar o olhar desse personagem, sem corpo e sem rosto, que só será mostrado ao final do filme.

Desertum é inspirado nos escritos de Edmond Jabès, pensador de origem judaica. Jabès refletiu sobre a questão do estrangeiro. Para Jabès, o estrangeiro não é apenas quem tem outra nacionalidade, quem vem de outro país, ou mesmo de outra religião, mas alguém a procura de um desconhecido (si mesmo), alguém que vive em meio a destroços e que, de fato, é de lugar nenhum. Ser estrangeiro, nesse caso, ultrapassa qualquer contingência sociocultural e ganha um contexto de intimidade: estrangeiro já é o eu a procura de um si mesmo desconhecido e que tem como fundamento o fato de ser de origem indeterminada, isto é, ter como origem o que não pode ser determinado, o desconhecido. Trata-se, por isso, de um eu ausente de si mesmo; em outras palavras, o lugar de sua presença é também um lugar de ausência, de silêncio, de desconhecimento, de indeterminação. Por isso, na poética jabesiana há a preferência por lugares distantes, solitários, por viagens, por travessias (do mar ou do deserto), isto é, por lugares ausentes, permeia todo o livro.

Para adaptar as idéias jabesianas, Desertum buscou um olhar por essa Argentina que escapasse do cartão-postal, isto é, um olhar original nesse país outro. A estética rigorosa, a ênfase no plano fixo, os locais amplos, são contrabalançados por uma música que causa um ainda maior estranhamento em relação a essa imagem, com músicas contemporâneas de autores de vanguarda como Matt Gustaffson, Nakamura, Keiju Haino, entre outros.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Desertum – Luiz Rosemberg Filho

Desertum – Ricardo Pretti (ver 13/02/2006)

O estranho Desertum de Marcelo Ikeda – blog “O último carioca”

Diversões (?) solitárias de Marcelo Ikeda – Carlos Alberto Mattos

A viagem do fantasma – Ranieri Brandão (Filmologia)

 
 



 
 

EM CASA

2011

 
 

EM CASA

(RJ, 2005, cor, MiniDV, 78′)


 
 

SINOPSE: Depois de dez anos, volto à casa. O que há da casa? O que há de mim? O que há de mim em casa? O que há da casa em mim?

FICHA TÉCNICA: Realização: Marcelo Ikeda. Edição de Som: Yuri Apoena.

 

DECLARAÇÃO DO DIRETOR: EM CASA inicia uma trilogia de diários de viagem em longa duração, sucedido por Desertum e Êxodo. Volto para a casa dos meus pais, onde nasci, após dez anos fora. O que há de mim nos cômodos dessa casa, em cada canto? Quais são os rastros de mim? Essa busca por uma origem é feita sem psicologia, mas através de um cinema materialista, com planos de câmera parada e de longa duração. De uma certa forma, Em Casa é um prolongamento das pesquisas de Entremeio, mas aqui o rigor da estrutura que decompõe a casa em cômodos ligeiramente se abre à medida que o filme segue adiante, avançando para os arredores da casa, e culminando num plano-síntese, o plano final.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Em Casa – Luiz Rosemberg Filho

Em Casa – r. cavalo

Diversões (?) solitárias de Marcelo Ikeda – Carlos Alberto Mattos

 
 



 
 

 
 

DIÁRIO DE UMA PROSTITUTA

(RJ, 2008, cor, MiniDV, 12′)


 
 

SINOPSE: A rotina do trabalho, a despedida da família e os sonhos de uma mulher. Um olhar, em três atos, sobre o livro O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha.

FICHA TÉCNICA: Realização: Marcelo Ikeda. Narração: Marcelo Ikeda.

 
 

COMENTÁRIOS:

Carta de intenções sobre Diário de uma Prostituta – Marcelo Ikeda

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Carta de intenções sobre Diário de uma Prostituta – Marcelo Ikeda

“Diário de uma prostituta” – Luiz Rosemberg Filho

 
 


 
 

CARTA DE UM JOVEM SUICIDA

(RJ, 2008, cor, DVCAM, 25′)


 
 

SINOPSE: Uma mãe chega ao apartamento de seu filho e encontra uma carta de suicídio endereçada a ela. Ela precisa enfrentar as consequências dessa carta em sua vida.

FICHA TÉCNICA: Direção e Roteiro: Marcelo Ikeda. Elenco: Cristina Aché, Franco Almada. Assistente de Direção: Daia Flórios. Fotografia e Câmera: André Scucato e Cristina Pinheiro. Direção de Arte: Abelardo de Carvalho. Figurino e Assistente de Arte: Mariana Abreu. Edição de Som: André Scucato, Cristina Pinheiro e Marcelo Ikeda.

DECLARAÇÃO DO DIRETOR: Carta de um Jovem Suicida explora o relacionamento de uma mãe e seu filho, de uma maneira pouco convencional: eles se comunicam através de uma carta de suicídio desse filho endereçada a ela. Mais que explorar os motivos que o levaram ao suicídio, esse curta examina as consequências dessa carta na vida dessa mãe. Ela deve enfrentar o fato que, mesmo provavelmente sendo a coisa mais valiosa de sua vida, ela não foi capaz de conhecer esse filho de verdade, e quando percebeu isso, era tarde demais.

O antes, o durante e o depois (do conhecimento do suicídio) são na verdade um único tempo, pois o fluxo do rumo das coisas é contínuo e ininterrupto. Por isso, a importância do plano-sequência, de modo a valorizar a organicidade do percurso interior dessa mãe, em direção a esse filho e, no fundo, em direção a si mesma.

 
 

COMENTÁRIOS: É curioso pensar como esse curta possui tantos elementos em comum com meu primeiro trabalho, o Depois da Noite, de forma que chego a pensar de que se trata de uma refilmagem, agora mais elaborada. Este curta, junto com o Diário de uma Prostituta e o Isabella, formam uma estranha trilogia, inserindo um novo componente em meus trabalhos: ao invés do silêncio, o texto lido. De qualquer forma, aqui ainda há o silêncio. Minha principal referência para compor o clima do filme foi o Gertrud, de Carl Dreyer.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Crítica Filmes Polvo – Mariana Souto

 
 


ÊXODO

2011

 
 

ÊXODO

(RJ/SC, 2008, cor, MiniDV, 96′)


 
 

SINOPSE: Anti-diário de viagem para a ilha de Florianópolis. O tempo, os lugares físicos e a distância de si. Um filme estrangeiro.
“Il et son féminin Île” (Ele e seu feminino ilha) – Edmond Jabès.

FICHA TÉCNICA: Direção, Produção, Fotografia, Edição, Edição de Som: Marcelo Ikeda. Música Original: Luiz e Ricardo Pretti.

APRESENTAÇÃO: Êxodo faz parte de uma linha de vídeos de Marcelo Ikeda baseados em diários pessoais de viagens, inspirados nos “filmes caseiros” de Jonas Mekas e no cinema sensorial de Abbas Kiarostami (“Five”). Assim como em Desertum, seu longa anterior, passado em Buenos Aires, em Êxodo temos o “anti-olhar” de um observador estrangeiro, que tem um primeiro contato com uma cidade desconhecida. Temos sempre o seu ponto-de-vista, desse observador silencioso que só é revelado ao final. Dessa vez, o lugar escolhido é a ilha de Florianópolis, com sua mescla de “cidade-turismo” e “centro urbano”. Marcelo Ikeda faz um percurso bastante rigoroso e pessoal ao longo desses espaços físicos, através de planos longos que sugerem um distanciamento do lugar filmado. O filme revela-se então um “anti-diário de viagem”, já que o deslumbramento com o novo e o contato com o outro praticamente inexistem. Os lugares físicos são filmados como “espaços vazios” e a experiência de imersão nesse lugar outro é problematizada com a música, de base eletroacústica. O título remete à estrutura ternária do livro bíblico e problematiza uma idéia de travessia espiritual, diante do vazio do mundo das coisas. Com isso, Ikeda realiza um trabalho que se insere numa linha do cinema contemporâneo que se aproxima das artes plásticas, num entremeio entre a ficção e o documentário, negando a dramaturgia clássica para construir um cinema composto puramente de tempo e espaço, como uma experiência essencialmente sensorial.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Apresentação do autor na primeira exibição pública do filme (CCBB/RJ – março/2008)

Prólogo de Êxodo (transcrição da narração que abre o filme)

“Êxodo” – Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar

Diversões (?) solitárias de Marcelo Ikeda – Carlos Alberto Mattos

Comentários do autor

 
 


Natal

2011

 
 

NATAL

(RJ, 2005, cor, DV, 15′)


 
 

SINOPSE: O Natal é uma época de paz e prosperidade, quando toda a família se reúne para celebrar a chegada do menino Jesus. Mas a família Ikeda se esqueceu que tinha um filho aspirante a cineasta…

FICHA TÉCNICA: Realização: Marcelo Ikeda. Com a família Ikeda.

 
 

COMENTÁRIOS: Estranho filme caseiro, um tanto atípico em relação a meus trabalhos. Aqui o tema é minha própria família no natal. Um falso filme infantil.

  


 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

Entrevista com Marcelo Ikeda sobre Natal – Felipe Bragança – Revista Cinetica

 
 

 
 

AUTO-RETRATO DO ARTISTA DURANTE A GESTAÇÃO

(RJ, 2005, cor, MiniDV, 16′)


 
 

SINOPSE: Um experimento autobiográfico. Um dia na vida do artista. Um casulo desarrumado. Antes, durante e depois.

FICHA TÉCNICA: Realização: Marcelo Ikeda. Com: Marcelo Ikeda.

DECLARAÇÃO DO DIRETOR: O artista pode até criar a partir das impressões do mundo à sua volta, mas no ato da criação o artista se volta para dentro de si.
O artista cria a partir de um contato íntimo com o seu interior.
Para criar, é preciso arrumar a casa: limpar a geladeira, colocar as roupas sujas para lavar, jogar fora aquilo que já não serve e apodreceu dentro de si.
Essa á a matéria-prima da criação, mas não se trata de mera disciplina, trata-se na verdade de um exercício de viver, de um modo de se ver diante do mundo e das coisas.
Há tanta coisa por se arrumar que muitas vezes não sabemos por onde começar! E provavelmente nunca iremos terminar nossa arrumação.
Mas depois de mais um dia de faxina, o que resta ao artista?

 
 

COMENTÁRIOS: Auto-Retrato partiu de um desejo de tentar experimentar um pouco com a comédia, uma espécie de “autoavacalhação”, entre as origens bregas japonesas e o samba-enredo. Mas no final, tudo se revela, num plano bastante típico do que procurei desenvolver nesses subversivos “vídeos caseiros”.

 
 

TEXTOS SOBRE O FILME:

“Proximidades e Distâncias” – Luiz Rosemberg Filho

“Auto-Retrato e o Movimento” – texto sobre o curta que apresentei na Bienal de Dança em Fortaleza

Comentários em meu blog sobre a primeira sessão do filme